quarta-feira, 4 de maio de 2016

O galo e o peru (uma antifábula natalina)

Véspera de Natal. No quintal de uma família de classe média, estão um galo e um peru. O galo caminha alegre, balançando a crista. Já o peru não sai do canto e mal disfarça a tristeza. Sabe o que o aguarda.
De repente o galo canta. O peru então o interroga com um misto de surpresa e ressentimento:
-- Por que essa alegria?
-- Porque tenho alguma coisa a ver com o que acontece hoje. Um de meus ascendentes saudou o nascimento do Menino. Foi a trombeta auroreal de um novo mundo. Como eu não iria me alegrar?...  E você? Qual a razão dessa cara?
-- Ora... Daqui a pouco vou virar comida para os que vêm festejar o nascimento a que você se refere. Queria que eu estivesse contente?
-- Procure aceitar. Trata-se de uma grande causa. Além do mais, você terá tudo para ser o rei da festa. Muitos o acharão macio, crocante, bem-temperado.
-- Isso não vai depender de mim, mas da cozinheira. Esqueceu que estarei morto?
-- Estará sem vida, mas será o centro das atenções. E o mais importante: representará ali a grande nota de realidade. Mais do que a árvore, as músicas, os cumprimentos formais, dará testemunho da natureza do homem.  O sucesso dessa noite vai se medir pelo prazer que der aos convivas.     
-- Tem certeza?
         -- Claro! Você vai saciar-lhes o apetite do corpo, que é mais profundo do que o da alma. Se vir as coisas por esse lado, se convencerá da sua importância.
O peru parece refletir sobre as palavras. O galo volta a se distanciar, balançando a crista, e canta de novo sem motivo. Ou, quem sabe, devido à alegria de não ser peru.  
Quando volta de mais um passeio, ouve novo desabafo:
-- Sua retórica não me convence. É fácil elogiar um condenado à morte quando se vai permanecer vivo.  Aposto que está contente por não ocupar o meu lugar.        
-- Não nego... Mas você sabe que meu dia chegará em breve. E não terá o mesmo brilho que o seu. Vou “reinar” num desses banais almoços de domingo, com música estridente ao fundo e cerveja em vez de champanhe.
Nesse momento a cozinheira aproxima-se dos dois e se dirige ao peru. Tem numa das mãos uma peixeira brilhante. A ave não esboça reação. No momento em que é alçada e apertada de encontro à barriga da mulher, ouve ainda cantar o galo. Pela terceira vez.

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