sexta-feira, 6 de maio de 2016

Antigamente

As palavras, como as pessoas, nascem e morrem. A diferença entre elas e nós é que podem ressuscitar. Um dia, quando menos esperamos, deparamo-nos com um arcaísmo que nos faz voltar à infância (esse “deparamo-nos”, com o pronome enclítico, já não seria um?).
Outro dia eu estava listando uns termos que ouvia quando era menino e que hoje praticamente não se dizem mais. Alguns se tornaram esquisitos; outros preservam um sabor que nos desperta o desejo de resgatá-los.
Hoje se diz de alguém convencido e presunçoso que é esnobe. Antigamente, uma pessoa desse tipo “só queria ser as pregas”. Por que as pregas? Pedi a ajuda da minha mulher, que logo matou a charada: na roupa feminina, as pregas são o que dá mais trabalho. Constituem um requinte, uma marca de distinção. 
Pirralho mal-educado a gente tratava “no cascudo”. Ou no “cocorote”. Levei vários deles, por sinal, e nem por isso fiquei ruim da cabeça. Ruim da cabeça? Naquele tempo ninguém falava assim. Dizia-se “leso”, “abilolado”. Os cascudos eram para mostrar que a criança tinha de obedecer aos pais “sem tugir nem mugir”, eu seja, sem murmúrio nem grito.
Homem usava “brilhantina”. Mulher, “laquê”. Cheguei a acompanhar meus pais a alguns bailes em que os cabelos dos homens eram um lustre só. Ainda não entrara em cena o xampu com a sua variedade de nutrientes que se ajustam aos vários tipos de fios. Fossem os cabelos secos, oleosos, lisos, encaracolados, louros, pretos ou brancos, a inevitável brilhantina os untava da mesma forma e impedia, se fosse o caso, que se revolvessem no atropelo da dança (mas que risco para isso as dolentes valsas podiam representar?).
Nesses bailes, por sinal, chamava-se a mulher para dançar pedindo-lhe que “concedesse uma parte”. Ela nem sempre se dispunha a saracotear com o “janota”, que achava “espeto” receber a negativa. “Espeto” se aplicava a pessoa ou situação difícil de suportar. Surgiu, certamente, por analogia com o objeto perfurante encontrado hoje nos rodízios de carne, peixe, pizza. A rejeição da mulher era mesmo um golpe, um furo na autoestima do cavalheiro, que tinha vontade de por causa disso provocar um “sururu”.
Mas ele nem sempre se dava por vencido, e às vezes conseguia se vingar. Dando uma “rabiçaca” em quem o rechaçou, por exemplo, ou esfregando-lhe na cara um “pedaço de mau caminho”. Isso: uma garota boazuda, fornida, “de fechar o comércio”, que fazia a outra se sentir um “sibito baleado”. 
E os nomes? Naquele tempo os homens se chamavam Anfilófio, Eleutério Salustiano. As mulheres: Eudóxia, Escolástica, Alaor. E os utensílios? Como nos quartos não havia banheiro, fazia-se xixi no “urinol”, que após o uso era pudicamente colocado embaixo da cama. Comida se guardava no “petisqueiro”, e no guarda-roupa se amontoavam sapatos ao lado de roupas. Algumas, para o gosto de hoje, muito “ababecadas”.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Cheiros e choro

Por volta das cinco da tarde, Dalila entra no escritório e começa a olhar para mim. Não late, não gane, não esperneia. Apenas espera. Se insisto em continuar diante do computador, ela eriça as orelhas numa repreensão muda. Caso eu continue indiferente, ameaça se baixar como se dissesse: se você não se levanta, faço aqui mesmo.
Esse argumento é decisivo. Levanto-me, passo a coleira em torno do seu pescoço, borrifo-lhe um pouco de repelente contra carrapatos e desço com ela as escadas rumo ao calçamento. Dalila é instruída, segura-se o quanto pode e só nas cercanias de um terreno baldio faz suas necessidades.
Envolvo a matéria num plástico e jogo-a num lixo próximo, longe dos olhos e narizes de quem passa. Gesto civilizado, que vi faz muito tempo num filme francês. Muita gente por aqui ainda não o copia; prefere fazer da rua privada de cães e acrescentar mais um argumento a quem não gosta dos bichos. Não é agradável recolher “aquilo”, é verdade; mas a civilização impõe deveres de que a gente não pode nem deve se esquivar. 
Depois de aliviada, Dalila começa o seu passeio. Passa o dia em casa aguardando esses 10 ou 15 minutos de rua, quando pode percorrer um espaço maior e cheirar à vontade. Li certa vez que para tirar o estresse do cão não é preciso levá-lo para passear; basta fazê-lo cheirar um espaço que para ele seja novo. A diversidade de odores que encontra ali revigora-lhe a alma, a sensibilidade, o espírito, ou que nome tenha o centro de suas emoções.
Um palmo de terreno, monótono e insípido para nós, pode ser para ele uma excursão turística de cheiros. Seu olfato capta gradações que ultrapassam de muito os limites para os quais nossas narinas estão equipadas, os quais vão, grosso modo, do perfume francês a um desses esgotos de favela. O resto ignoramos.
Não temos, de fato, a hipertrofia de um sentido como a têm os cães em relação ao cheiro, ou as águias quanto à visão. Sentimos tudo dispersamente, por igual, o que não é vantajoso. Se nada chega ao intelecto sem passar pelos sentidos, talvez esteja nessa dispersão a fonte da nossa ignorância do mundo. Como captá-lo, como compreendê-lo, se o nosso cérebro padece de anemia sensorial?
Vejam se não tenho razão: Dalila me puxa pela coleira e vai sugando o chão com as narinas. Isso a impulsiona a ponto de quase me fazer deixá-la escapar. Parece um aspirador vivo na ânsia de absorver os menores resíduos olfativos da paisagem, e sairá dessa experiência plenificada.  Enquanto isso, eu me desligo das sensações em volta pensando nestas besteiras que o leitor está lendo. Tudo para depois, friamente, redigir um texto diante do computador. Qual dos dois está certo?  

Cantigas perigosas

O politicamente correto chegou às cantigas infantis. A partir de agora devemos ter muito cuidado com o que cantamos para as crianças. Uma simples canção de ninar pode embutir um significado nocivo, capaz não só de amedrontá-las como também de marcar-lhes negativamente a personalidade.
Fui criado ouvindo “Atirei o pau no gato” sem perceber o quanto esses versos incitam à violência contra os animais. O título já é bem sugestivo, mas os detalhes são de arrepiar. Diz-se em certa passagem que uma tal de Dona Chica admirou-se “do berrô, do berrô que o gato deu”. Em vez de se compadecer do felino, a mulher fica pasma e passiva ouvindo-lhe os gritos e talvez se deliciando com a manifestação de dor. Como se isso não bastasse, a letra tem uma mensagem antiecológica. De onde teria vindo o pau atirado no gato, se não de uma árvore destruída por algum madeireiro ganancioso?
         “O cravo brigou com a rosa” tem uma sugestão bélica que não fica bem a duas flores. Delas se espera ternura, concórdia, enlace amoroso -- e não que fiquem se despetalando de raiva uma da outra. E o famoso “Boi da cara preta”? Geralmente se canta essa música para fazer as crianças dormir, mas como levá-las ao sono ameaçando-as com um bicho escuro que, ainda por cima, as aterroriza com caretas? Se dormirem, coitadas, vão ter horríveis pesadelos.
Ninguém também se iluda com a aparente inocência de “Ciranda, cirandinha”, que não traz nenhum exemplo de bom comportamento moral. Pelo contrário, realça a mentira e a quebra de compromisso. Alguém dá a uma moça um anel de vidro dizendo que ele é de material mais resistente. O resultado é que a joia se quebra -- mas eis o pior: sua fragilidade simboliza o amor de quem deu o presente. Um falso.
Outra cantiga que nada tem de edificante é a que acompanha a história da Dona Baratinha. No início da letra alguém pergunta quem quer casar com ela. Espera-se, obviamente, que a noiva possua predicados que a habilitem a ser uma boa esposa: fidelidade, apego ao lar, disposição para ser mãe. Em vez disso ouvimos um tanto desapontados que ela “tem fita no cabelo e dinheiro na caixinha”.  Ou seja, exalta-se apenas a vaidade da pretendente e, pior, insinua-se ao eventual marido a possibilidade de um golpe do baú. Não surpreende que o candidato seja um tal de... Dom Ratão. Felizmente o esperto teve o destino que merecia, morrendo cozinhado numa panela. 
“Samba Lelê”, quem não conhece? Hoje não se deve mais cantá-la devido àquela referência a “umas boas lambadas”. É impossível aceitar isso numa época em que a Lei da Palmada se dispõe a livrar as crianças de castigos corporais. E quanto a “Pai Francisco”? Vocês vão dizer que é do mais inofensivo humor. Que tem demais afirmar que o homem “parece um boneco desengonçado”? Já vi que não prestaram atenção ao verso que vem antes; nele se diz que o tal Francisco vem “todo requebrado”.  Hum... Homem se requebrando? Isso lança uma suspeita sobre a sua identidade sexual, e não fica bem às crianças deparar-se tão cedo com tais ambiguidades.   
Se queremos adultos equilibrados, precisamos cantar para nossos meninos outras canções. O problema é saber quais. Enquanto não descobrimos, o mais prudente é niná-los com o inofensivo “ããã, ããã, ããã”. Qualquer fonema ou palavra a mais pode ser perigoso. Muito perigoso.

Descasados

Vez por outra o grupo se reunia para fazer um balanço da vida. Curiosamente, todos estavam sós. O assunto daquela noite foi a razão pela qual os casamentos falharam (Euclides, o intelectual da turma, chegou a criar uma frase de que todos gostaram muito: “O  casamento é um estágio desnecessário rumo à solidão”).
Quem primeiro falou foi Zuleide:
-- Me casei com um engenheiro. Deu errado porque ele queria mudar meus alicerces. Resisti, esbravejei, e da nossa relação não ficou pedra sobre pedra. 
-- Pois eu -- explicou Valfredo -- fui casado com uma jornalista. Ela era apressada e neurótica. Em nossos momentos íntimos, que eram raros, só pensava se a cobertura ia resultar num grande furo. Além disso, tinha medo de perder o emprego por causa de uma “barriga”. Terminei indo embora.
-- Meu caso foi pior -- falou Osmar. -- Casei-me com uma promotora. Vivia, claro, me acusando. Era uma relação cheia de altos e baixos. Tudo que eu fazia era usado contra mim. Afastei-me, não havia outro recurso.  
Foi a vez de Clotilde justificar o seu fracasso: 
         -- Nestor era guarda de trânsito. No início tudo correu bem. Com o tempo, ele começou a reclamar de que eu não lhe dava mais bola. Dizia que eu avançara o sinal, tinha outro, e devia ser penalizada por essa infração. Fui perdendo o respeito em casa, onde só ele apitava. Pedi o divórcio.
-- E você, Nemésio? -- quis saber alguém.
-- Ah, eu me casei com uma costureira. Nos primeiros meses, éramos casa e botão. Com o tempo ela foi perdendo a linha, e numa briga me furou com um alfinete. Antes que me agredisse com uma tesoura, resolvi me escafeder.
Elogiaram a prudência de Nemésio. Uma tesoura provocaria danos bem mais graves do que um alfinete... Foi Suênio quem interrompeu os comentários do grupo:
-- Minha mulher era psicóloga. Quando colocou um divã no quarto, pensei que era para nosso conforto -- mas ela queria me analisar.  Descobriu que eu tinha uma série de complexos. Isso afetou de tal modo a minha autoestima, que quando ela estalava os dedos corríamos eu e Totó. Eu já não sabia quem era, ou se era alguém. Saí da relação com uma bruta crise de identidade. Au!
Mércia foi a próxima a falar: 
-- Meu marido era marinheiro. Passava três, quatro meses no mar, e quando voltava não queria içar a vela. Perguntei se ele tinha “outra”. Ele respondeu que era quase isso; eu errara pelo gênero. Nunca pensei que essa fosse a praia dele! Também não fiz tempestade, e dissemos adeus numa boa.
Faltava Doroteia, que não se fez de rogada:
-- Pois eu, pessoal, fui casada com um político. No início me encantei com o discurso cheio de promessas, mas logo descobri que era tudo demagogia. Mesmo em casa, ele só queria palanque. A gota d’água foi quando eu soube que umas tais reuniões para discutir  estratégias de campanha eram um eufemismo para os encontros com Elisete -- uma de suas assessoras. Essa não tinha nada de “fantasma”, era mesmo de carne e osso. Sei disso porque quebrei alguns.

Quase cantor

Além de quase médico, fui também quase cantor. Para entender como isto se deu é preciso remontar ao início da década de 1980, quando fiz o Mestrado no Rio de Janeiro. Como tinha tempo livre, pois fora liberado pela UFPB somente para estudar, resolvi fazer um curso de empostação vocal. 
Decisão tomada, consultei os classificados do “Jornal do Brasil”, onde me deparei com um anúncio: “Sílvia Lamounier – rejuvenescimento vocal”. Era mais do que eu desejava: não apenas empostar, arranjar direito as sílabas, controlar a emissão da voz, mas também rejuvenescê-la. A professora morava numa transversal da Av. Nossa Senhora de Copacabana. Tive que ir de ônibus até lá, pois a linha de metrô que liga o Flamengo a Copacabana ainda estava em construção.
Recebeu-me uma simpática senhora de cabelos escuros e olhos vivos. Tinha um ar de prima-dona, o que me infundiu confiança. Quem sabe não teria cantado em alguma ópera e hoje, aposentada, se dedicava a passar parte da sua experiência a pessoas como eu? Comoveu-me a expectativa de partilhar daquele resto de glória, embeber-me da luz que dela ainda se irradiava.
Devaneios à parte, perguntei o preço da aula. Não era nada de fazer perder a voz, mesmo porque naquela época vivia-se a Era Sarney e meu salário quase dobrava de um mês para o outro. Antes que a inflação o comesse, dava para fazer pequenas viagens e gastar com alguns extras.
Definimos o horário, e passei a ter aulas duas vezes por semana. Dona Sílvia me instruía nos vocalises e me ensinava a respirar. A respirar, sim, pois até para esse ato simples, fisiológico, vital, precisamos de um aprendizado. Não respiramos bem e levamos pouca energia ao corpo. Sem energia, não há como soltar a voz. A professora mostrou que a minha estava presa, encaramujada em não sei que dobras do aparelho fonador, e era preciso libertá-la. Os instrumentos para isso eram técnica e respiração.   
Aos poucos a voz foi saindo, ou melhor, se esculpindo. Após algumas semanas me ouvi cantando canções cujas letras eu não compreendia bem, pois eram em italiano. Entendia melhor quando eram em francês. Vez por outra ainda cantarolo uma berceuse que eu executava em dueto com a professora... Foi o que ficou daquela época, pois as aulas não duraram muito. Fui percebendo que ao embalo da música eu começara a esquecer por que estava ali: aprender a usar a voz para não a desgastar em sala de aula. Era um professor, não um aprendiz de cantor lírico.
Isso pedia realismo e objetividade. Fui de novo aos classificados e procurei uma fonoaudióloga. Essa era objetiva e tratou logo de corrigir minha respiração; o ar tinha que vir do abdômen e não do tórax... As aulas agora eram frias, sem duetos nem repertório musical.
Não sei se fiz bem deixando as lições de canto. Dona Sílvia dizia que eu levava jeito. Poderia ser hoje um barítono, ou um tenor. Mas, enfim. Resolvi mesmo desafinar em outras áreas (e não “árias”) da vida.

Dizer pelo avesso

Nossa língua é incoerente ou somos nós os estranhos? A gente...

- está insatisfeito com alguém vai e “tomar satisfação”.
- obriga uma pessoa a ir embora, dizendo: “Queira se retirar”.
- acha “bárbara” uma festa em que não ocorreu nenhuma atrocidade.
- chama de “legal” um comportamento que nem sempre respeita a lei.
- faz “seguro de vida” para obter uma garantia que só virá com a morte.
- diz “Tudo bem...” diante de uma coisa que aceita a contragosto.
- chama de “tira-gosto” um alimento que vai tornar suportável a bebida.
- exclama “Essa é boa!” diante de uma coisa que achou ruim
e “Só faltava essa!” a propósito de algo que dispensaria.
- chama de “genial” o que às vezes não está nem acima da média.
- manda preparar uma “simpatia” para prejudicar aqueles por quem tem aversão.           
- diz que alguém “bebe como um gambá”, embora até hoje ninguém tenha tido notícia de um gambá alcoólatra.
- diz que alguém imobilizado em cima de uma cama “anda” doente.
- acha que para estar na frente é preciso ter sempre “um pé atrás”.
- chama de “consorte” mesmo quem é azarado no casamento.
- diz “vou chegando” quando vai saindo.
- chama de “galinha” um homem que vive atrás de mulheres.
- traça planos para o futuro, mas afirma que ele “a Deus pertence”.

Bolsa Feiura

Li há alguns dias que estão pensando em criar o Bolsa Feiura. Segundo o idealizador do projeto, vivemos numa sociedade que valoriza muito a beleza, e os que não a têm competem em desigualdade de condições com os bonitos. Uma forma de reparar essa injustiça seria destinar aos feios determinada quantia para que eles pudessem de alguma forma reduzir os efeitos da sua condição. Com o dinheiro comprariam produtos de beleza, frequentariam clínicas estéticas ou mesmo, se fosse o caso, fariam plástica.
Certamente isso vai gerar muitas críticas. Dirão que não tem sentido propor tal ajuda quando há no país milhares de indivíduos sem teto ou com fome. Esse argumento, contudo, é fácil de refutar. A feiura não é um problema social (a não ser, talvez, na China), mas entristece ou deprime muitas pessoas, o que indiretamente afeta o setor produtivo do País. Quem, sentindo-se por dentro “um lixo”, tem ânimo para fazer a contento o seu trabalho?
         Essa história de “estar bem consigo” tem fundamento. Se o espelho não nos aprova, tendemos a ignorar os outros e pouco nos importamos com o mundo. Em alguma medida, Freud tem razão: o universo é projeção do ego. Tendemos a moldá-lo conforme nossa disposição interior.   
Inclinamo-nos para o belo porque, segundo Stendhal, a beleza é uma promessa de felicidade; isso quer dizer que a feiura promete o oposto. Vinicius segue a mesma pisada ao afirmar, pedindo perdão às muito feias, que beleza é fundamental.
Como veem, o Bolsa Feiura tem um sólido aval literário (a não ser por Quasímodo, que compensa a corcunda com a beleza interior -- mas quem liga para ela hoje?). O projeto, se aprovado, não mudará ninguém mas servirá de inestimável consolo. Vai reparar um pouco o descuido (ou mesmo a imperícia) com que a natureza molda certas fisionomias.
O problema de um projeto como esse em nosso país é que poucos resistem a dinheiro que vem do Estado. Seguindo a prática do jeitinho, a maioria vai bolar artifícios para parecer mais feia do que é e ter direito à cota. Talvez isso produza um decréscimo na nossa vaidade, levando à crise o setor de produtos estéticos. Haveria protestos, demissões -- e aí, sim, a coisa ficaria feia.

Conversa sem fim

Há tempos Tancredo queria acabar o namoro com Danusa, mas não conseguia.  Além de persistente, ela era imbatível no uso das palavras. Apesar disso ele resolveu fazer mais uma tentativa:
           -- Está tudo acabado entre nós.  
       -- Tudo o quê? O que houve foi tão pouco... Se você se precipitar, pode se arrepender.   
-- Não vou me arrepender. Sei disso.
       -- Sabe disso agora, mas arrependimento não ocorre antes. Vem depois. E quem sabe o que nos reserva o futuro?
        Disse isso com um ar sombrio e reflexivo, que assustou Tancredo. Mas desta vez ele parecia decidido:
-- Não dá mais. Nosso namoro perdeu a graça.
           -- Bom sinal. Isso quer dizer que ficou sério.
        -- Não falo de “graça” riso. Falo de “graça”... empolgação. Não existe mais o prazer da novidade. Ficou tudo muito previsível.
-- Exagero seu -- protestou a moça. -- Aposto que você não sabe a surpresa que eu ia lhe fazer hoje.
-- Surpresa?! Qual?
-- Ia lhe convidar pra gente ir ao shopping assistir um filme e depois comer pizza.
-- Mas a gente faz isso o tempo todo!
-- Por isso eu disse que “ia” lhe fazer a surpresa. Como sei que você não suporta esse programa, desisti de propor a ideia. Viu como lhe conheço bem?
Tancredo suspirou, já se dando por vencido. Cada vez mais se convencia de que, se quisesse acabar tudo, tinha que ir embora sem dar explicações 
-- Está bem... Vamos esperar mais um pouco.
-- Que foi que eu disse? Você ia se arrepender... 
         Ficou um tempo pensativa:
-- Só lhe peço uma coisa. Se um dia resolver mesmo me deixar, avise antes. Acho horrível esses casais que vão embora em silêncio, como se nunca tivesse havido nada entre eles. Você promete antes conversar?
-- Prometo.
-- Eu juro, juro que sempre vou respeitar suas decisões!  

Atrapalhados

Os dois vão de carro pela estrada e de repente sentem um solavanco.
-- Ai, Joaquim. Parece que o pneu estourou. 
-- Como sabes?
-- Não ouviste o barulho?... Vamos descer.  
Descem, examinam as rodas e veem que, de fato, um dos pneus está murcho.
-- Anda, vai atrás de um macaco.
            -- Como?! O zoológico fica a mais de 30 quilômetros!
-- Não me a refiro ao animal macaco, mas ao instrumento que serve para suspender o carro.
         -- Suspender? Mas o que ele fez de errado?
         -- Estúrdio! Não falo de aplicar uma suspensão, mas de levantar um dos lados para mudar o pneu. 
-- Ah... -- dá-se conta Joaquim. Abre o porta-malas e tira o macaco.
-- Pronto. Está aqui. -- Insere o macaco no lugar adequado e começa a rodar a manivela. O carro se levanta aos poucos do lado esquerdo.
-- Eh, Joaquim!  O pneu furado está no lado direito. Tens que trocar de posição.
Joaquim retirara o macaco e o leva paro o outro lado. Repete a operação anterior. 
-- Pronto.
-- Pronto? Não achas que falta alguma coisa?
-- Deixa-me ver...
-- O estepe, o estepe.
-- Estepe? Mas vejo aqui muitas árvores...           
-- Refiro- me ao pneu de suporte. Vai buscar. 
-- Não há por aqui loja de pneus. Onde iríamos comprá-lo?
-- Não sabes que ele fica no compartimento de trás? Junto do macaco?
-- Ah, então então era para isso que ele servia...
-- “Servia”?
-- É que... como o pneu estava sem uso e eu precisava de dinheiro, vendi-o na semana passada.  
-- Vendeste? E agora? Como vamos tirar o carro do prego? 
-- Não é o prego que deve ser tirado do carro?   
-- Claro, claro... Quero dizer: como vamos chegar em casa?
-- Ainda tenho aqui algum dinheiro, dá para pegarmos um ônibus. Em casa providenciamos um reboque.  
-- Brilhante ideia! Felizmente ainda pensas. Vamos esperar o ônibus.
Ficam um tempo à beira da estrada e veem que o céu está se carregando de nuvens. 
-- E agora? Vai chover.  Vou buscar o guarda-chuva no carro.
-- Corre, Joaquim. Faz mesmo isso.  
-- Pensando bem, por que não entramos no automóvel?
-- Mas não é perigoso, com um pneu furado?
-- Ficamos só o tempo de passar a chuva, homem. 

-- Sendo assim, está bem.

Carnaval e solidão

        “Festa do pecado” – foi com esse tipo de rótulo que o Carnaval, desde cedo, apresentou-se à minha imaginação. Falava-se nele como “festa da carne”, alegria dos baixos instintos, frenesi do demo. Por isso eu sempre o recebi com uma ponta de remorso. Brincar o carnaval era transgredir não sei que piedosas regras, era comprometer-se com o inferno. O corpo gozava, mas esse prazer de poucos e efêmeros dias acabava tendo um preço.
No entanto o Carnaval não é penas gozo do corpo, prazer dos instintos. Comporta uma outra dimensão, cheia de fantasia e sonho, alimentada pelo dramatismo de paixões que entristecem e dilaceram. Em cada folião ou foliã anônimos, sonhando nas esquinas sombrias com o próximo parceiro, reflete-se a paixão transfigurada de Pierrô, Colombina e Arlequim. Ninguém admite que saia à rua apenas para brincar – pelo contrário: a brincadeira é também esperança de algo maior, transcendente. É o sonho de uma grande paixão, o desespero fantasiado em riso.
       Dos autores que escreveram sobre essa festa, um dos que mais me impressionaram foi João do Rio. Há em suas crônicas e nos seus contos o sentimento do homem dividido entre a alegria e o remorso, e para quem o prazer físico é uma emoção torpe. João do Rio retrata a belle époque, tempo de crise e subversão de valores no qual as contradições, por mínimas que fossem, ganhavam um acento patético. Mesmo descontando-se os exageros da época, ressalta de seus textos, colorida e potencializada pelo impressionismo do estilo, a velha oposição entre carne e espírito, que comumente vem à tona numa época como a de agora. 
E lá estão, nos textos do carioca, personagens ansiosos por mergulhar na noite, perder-se na devassidão e no abismo de outros corpos. Vão arrependidos, exalando em palavras de autocomiseração e tédio o odor de seus baixos instintos. Até que são punidos por uma espécie de logro que lhes é dado pelo objeto de desejo, que se apresenta horroroso e hediondo.
Assim, por exemplo, a mulher mascarada e aparentemente linda revela-se, quando lhe arrancam a máscara, doente e disforme. Não é uma Vênus, como parecia; é um aleijão, de cujo nariz jorra pus. Por essa deformação estética, que frustra qualquer possibilidade de satisfação física, corrige-se um desvio ético e revela-se, ao mesmo tempo, o moralismo do autor. O esnobe e homossexual João do Rio, tão criticado pela sociedade da época, não passava de um moralista severo.
         Mas o nosso tempo é outro, bem mais prático e comercial. Longe estamos dos excessos da belle époque. Hoje é o governo que alardeia preocupação com a nossa saúde venérea, incitando-nos ao uso da camisinha. O pecado é não se prevenir, ficar doente, mas não é errado transgredir os limites do corpo. Este parece aberto a todo tipo de prazer. E a virgindade vale muito pouco.
         Mesmo assim o Carnaval ainda preserva o romantismo de outros tempos. É falsa, mesmo na permissividade da folia, a alegação de que ninguém é de ninguém. Para além do corpo que se oferece, em riso lúbrico e escancarado, sonhamos com alguém que venha e não vá embora. Alguém que fique e nos socorra depois – quando a lembrança do gozo desfeito não for mais que uma evidência de solidão. 

Educação

O homem se prepara para almoçar e vê que um amigo se aproxima da mesa.
-- É servido? 
           O outro não hesita:
           -- Sim.     
           -- Como?
            -- Sou servido, sim. Estou com fome e sem dinheiro.  
Fica meio desapontado:  
            -- Perguntei por perguntar, ora. Este almoço é meu. 
            -- Mas você acabou de me oferecer...
        -- Fiz isso por educação. É assim que a gente age quando está comendo ou bebendo alguma coisa e aparece outra pessoa.
-- Mas você não está comendo.  Ainda ia começar.
            -- Ia?
-- Ia, sim. Como me ofereceu e eu aceitei, não vai mais. Se não queria dividir a comida comigo, por que perguntou se eu era servido? 
            -- Porque isso é praxe. 
            -- Praxe?! Você despertou em mim uma falsa expectativa, zombou do meu instinto de sobrevivência e conservação. Não calcula o quanto minhas papilas gustativas se alegraram no breve momento em que fez a oferta. Meu estômago deixou momentaneamente de roncar. Meus intestinos, que não trabalham há mais de 24 horas, começaram a fazer aquecimento...
O outro, já perdendo a paciência, arrisca um último apelo:
            -- Vá embora e me deixe comer. Apenas tentei ser educado, já disse. E você foi grosso ao levar meu oferecimento a sério. Quebrou uma regra social. Eu devia, quando você entrou, ter ficado indiferente e começado a almoçar. Por sinal, a comida está esfriando.
-- Tudo bem, vou embora. Mas saiba que nunca fui tão destratado. Você foi hipócrita e agora se mostra insensível. Não se convida alguém para a mesa e depois o escorraça.
-- Escorraça? Já disse que não lhe convidei.
Ficam um tempo em silêncio, até que o que ia almoçar se dá por vencido.
-- Está bem. Tome, é seu. 
           -- Sério?!
           -- Sério. 
O outro se senta e pega avidamente o garfo, enquanto o amigo se levanta para ir embora.
-- Já vai?
            -- Vou. Para mim, basta.
            -- Espere. 
            -- O que você ainda quer?
          -- Obrigado -- diz, com aparente comoção. E antes de engolir a primeira garfada, pergunta com um ar entre culpado e temeroso:
-- Servido?
Moral da história: de nada valem as regras quando impera a necessidade.

Como eu quero envelhecer

Minha irmã médica pede que eu divulgue um concurso de redação proposto pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia sobre o tema “Como eu quero envelhecer”. O concurso se destina a alunos do primeiro e segundo anos do ensino médio, mas me deixou motivado. Fiquei pensando em como eu gostaria de enfrentar essa prova que a natureza nos reserva.
       Se a velhice é obra da natureza, o sensato é enfrentá-la de modo natural. Simplesmente deixar que ela venha, dispensando os artifícios com que tantos procuram negá-la. Nada de plástica,  nada de pintar os cabelos, nada de se vestir como um garoto. Tais recursos não disfarçam a passagem do tempo e acabam dando aos que deles se servem um aspecto caricato. Revelam desconforto e sofrimento com a perda da juventude, quando a maior vitória é mesmo aceitá-la. 
         Dizer que a velhice tem os seus prazeres é um lugar-comum, mas não há como fugir a ele. O cansaço do corpo propicia uma abertura do espírito, que se torna mais sensível à beleza. Quero envelhecer com tempo para ver bons filmes, apreciar boas pinturas, ler alguns livros que não li. E sobretudo (o mais difícil) fazer grandes viagens. Quero envelhecer não com riqueza, mas com o dinheiro suficiente para conhecer alguns dos importantes centros culturais e artísticos do mundo.
        Quero envelhecer fazendo o que sempre tenho feito e desprezando esta palavrinha mortífera – aposentadoria. Envelhecer no trabalho, que dá sentido à vida. Afinal, somos o que fazemos. Quero envelhecer fiel aos meus princípios, mesmo errados e às vezes confusos, porque bons ou maus são eles que me seguram. Mas também quero forças para mudar quando isso for útil aos que me cercam e não representar uma traição a mim mesmo.
      Quero ficar velho com habilidade não para esperar a morte, mas para me desprender da vida. A morte nada tem de transcendente; morto, não estarei em lugar nenhum. A vida, sim, transcende. Ela é o grande mistério, e a perspectiva de perdê-la requer sabedoria. Quero enfrentar isso com coragem e decência.
          Quero envelhecer com bom humor para encarar o espelho e o olhar das pessoas, sobretudo aquelas que passam anos sem nos ver e mal disfarçam a surpresa quando se deparam conosco (parecem não se dar conta de que o espanto é recíproco).  Quero envelhecer sem rancores, perdoando a quem me feriu e merecendo o perdão daqueles a quem fiz mal. Com isso eu teria um bom veredicto no julgamento dos homens e poderia, quem sabe, permanecer algum tempo na sua memória.
          Quero envelhecer aprendendo a dizer certas palavras a quem amei, palavras que ficarem recolhidas por encabulamento ou falta de jeito.  Também quero envelhecer sem o mau humor nem o azedume tão comuns a boa parte dos velhos, que parecem desprezar os que em outra quadra do tempo desfrutam a vida (como se essa oportunidade não lhes tivesse sido ofertada). Quero sobretudo envelhecer com lucidez, dono do meu corpo e do meu espírito. Se isso for impossível, não faço questão de ir embora mais cedo. 

O melhor amigo

Nestor tinha pavor de ser traído. Casado há dois anos com Verinha, sofria pesadelos imaginando-a com outro. Como esse medo se tornava uma obsessão, ele sentiu que precisava desabafar com alguém para não enlouquecer. Pensou em Eduardo, seu melhor amigo. E um dia, entre uma cerveja e outra, falou-lhe da sua angústia.  
O amigo, para surpresa de Nestor, não lhe tirava a razão:
-- Longe de mim duvidar da honestidade de Verinha, mas hoje os tempos são outros. Li recentemente que as mulheres estão traindo tanto quanto os homens.
-- Você leu? Onde? -- quis saber Nestor, aflito, passando sem querer a mão na testa.  
-- Ah, li em vários lugares... E tenho uma tese sobre isso: as mulheres traem justamente os pudicos, os certinhos. 
-- Os certinhos... como eu? Explique melhor.
Eduardo emborcou metade do copo de cerveja e prosseguiu:
-- Para mim, mulher só é fiel quando tem medo de ser traída. A fidelidade nela não é uma virtude, mas uma estratégia de defesa. A mulher só ignora os outros homens quando convive, concretamente, com a possibilidade de perder o seu.  
-- Mas isso é um absurdo! Ou você está doido, ou leu muito Nelson Rodrigues.
-- Vá por mim, Nestor. Quer que Verinha seja fiel a você? Dê a entender a ela que tem outra -- ou melhor: tenha mesmo outra! Ela vai ficar tão concentrada nisso, que não enxergará no mundo outro homem além de você.
         A conversa não saiu da cabeça de Nestor, que terminou vendo algum sentido nas palavras de Eduardo.  Precisava “preocupar” Verinha para que ela não tivesse tempo nem ânimo de pensar em outro. Uma semana depois começou a namorar Alzira, caixa de uma lanchonete que, havia já algum tempo, enrubescia quando lhe passava o troco. Como trabalhavam de dia, marcaram para se ver de noite pelo menos uma vez na semana.
Verinha, claro, começou a desconfiar. O que podiam significar aquelas fugas noturnas senão outra mulher? Sofreu em silêncio até que não aguentou mais e resolveu se abrir com alguém. E ninguém mais adequado para confidente do que Eduardo, o melhor amigo do marido. Ele devia saber de alguma coisa.
E sabia mesmo. Eduardo lhe propôs um encontro numa lanchonete (a mesma, por sinal, onde Alzira trabalhava) para conversarem sobre “o caso” de Nestor.
-- Ele tem um caso? -- foi a primeira pergunta que Verinha fez antes de pedirem um sanduíche com suco de laranja.  
-- Infelizmente, sim. Você não merecia... ou melhor: merecia.
-- Eu merecia? Por quê?
-- Verinha, você não conhece a psicologia masculina. A fidelidade no homem não é uma virtude, mas uma estratégia de defesa. O homem só ignora as outras mulheres quando convive, concretamente, com a possibilidade de perder a sua. Por que não lhe dá uma lição?
-- Lição?
-- Claro. Arranje alguém. Quando Nestor desconfiar de que você tem outro, vai ficar desesperado e se tornar de novo um marido fiel.
Verinha ficou impressionada com a conversa. Dias depois, telefonou para Eduardo a fim de aprofundarem o assunto. E não só para isto. Se tinha mesmo que trair Nestor, que fosse com alguém que lhe dissera palavras tão profundas.

Conversa com o "Bruxo"

Aproveito a releitura de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” para trocar um dedo de prosa com o seu autor. “Trocarnão é bem o termo, pois quem falou foi Machado. Nossa conversa, além de instrutiva, serviu-me para matar o tédio do domingo. Espero que tenha para o leitor a mesma serventia:
-- O senhor é um autor melancólico. Por que se liga tanto no passado?
-- O menos mau é recordar. Ninguém se fie da felicidade presente; há nela uma gota da baba de Caim. Corrido o tempo e cessado o espasmo, então sim, então talvez se pode gozar deveras.
-- Em sua obra é comum o tema da loucura. Há alguma justificativa para isso?
           -- O mundo da lua, esse desvão luminoso e recatado do cérebro, que outra coisa é senão a afirmação desdenhosa da nossa liberdade espiritual?
-- Por que escolheu ummorto para ser o narrador de “Memórias Póstumas...”?
-- A franqueza é a primeira virtude de um defunto. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da morte
-- De fato, um morto não se importa com o julgamento alheio...
-- Nãonada tão incomensurável como o desdém dos finados.
         -- Por que é tão difícil a franqueza nas relações sociais?
-- A veracidade absoluta é incompatível com um estado social adiantado.
-- Outro tema recorrente em sua obra é a ambiguidade moral do ser humano. Por quê
         -- O vício é muitas vezes o estrume da virtude.
-- Até que ponto essa ambiguidade é determinada por fatores externos?
-- Não se pode honestamente atribuir à índole original de um homem o que é puro efeito de relações sociais.
-- Apesar disso, transparece na sua obra a ideia de que o homem é fundamentalmente egoísta.
-- O nosso espadim é sempre maior do que a espada de Napoleão.
-- Que conselho o senhor daria a um jovem de hoje?
         -- Trata de saborear a vida; e fica sabendo que a pior filosofia é a do choramingas que se deita à margem do rio a fim de lastimar o curso incessante das águas.

Fidelidade canina

O casamento deles andava morno. Os dois fingiam não reconhecer isso, mas chegou um momento em que não dava mais para disfarçar. Foi então que uma noite, depois de jantarem, Clodoaldo falou meio sem jeito para Tâmara:
-- Acho que devemos dar um tempo.
-- Concordo -- disse ela prontamente.
         -- Amanhã vou dar entrada nos papéis. 
-- Ótimo. -- E completou, depois de um breve intervalo: -- Não faço questão de muita coisa. Vendemos o apartamento, e você me dá a metade. Fico também com um dos carros, e com Totó.
-- Ah, isso não! Totó é meu.
-- Seu? Por quê? Fui eu que sempre dei comida, limpei o xixi, cuidei dele quando ficou doente.    
-- Mas eu fui quem lhe deu o nome.
-- Um nome, por sinal, originalíssimo! -- ironizou Tâmara.
-- E você queria “Brad Pitt”! “Brad Pitt Bull”! Ridículo... Não entende nada de cães.
-- E você não entende nada de mulheres.
Totó, que cochilava perto dos dois, parece ter percebido que era o assunto da conversa. Baixou uma orelha e eriçou a outra, como se quisesse escutar melhor. 
-- Ou levo Totó comigo, ou não me separo! -- sentenciou a mulher. 
-- O mesmo digo eu. Sem Totó, não há separação!
        Ficaram uns dias nisso, chateando-se mutuamente e agora em rixa declarada por causa do cachorro. Então Clodoaldo teve a ideia:
-- Vamos deixar que ele decida.
-- Ele?! .Como?
         -- Botamos nossas malas na sala e fingimos que vamos sair de casa. Cada um chama Totó. Vamos ver para quem ele se dirige. O vencedor o ganha para sempre.
Tâmara aprovou. Tinha com o cachorro uma convivência mais íntima do que o marido, que se limitava a levá-lo para passear e fazer as necessidades fora do apartamento. Clodoaldo via nesse encargo seu trunfo; confiava na atração que os machos têm pela liberdade.
Fizeram como planejado. O cão se habituara a vê-los preparar as malas para viajar. Sabia o que ia ocorrer quando as bagagens ficavam na sala por um, dois dias. Dessa vez estranhou, pois cada um dos donos se postou junto a uma mala e começou a chamar por ele.  “Aqui, Totó!” “Não, Totó. Aqui!”
        Valia tudo -- estalar os dedos, amaciar a voz, dar pancadinhas no chão. Atarantado, o animal não sabia o que fazer. Olhava alternadamente para um e para o outro, ameaçava ir numa direção mas logo recuava.
         Repetiram mais de uma vez a experiência, e nada. Como o cachorro não se decidia, o casamento ia se mantendo. A cada nova encenação Totó se mostrava mais firme e equidistante.  Parecia ter consciência de que a sua fidelidade aos dois era o que ainda os mantinha juntos.

O galo e o peru (uma antifábula natalina)

Véspera de Natal. No quintal de uma família de classe média, estão um galo e um peru. O galo caminha alegre, balançando a crista. Já o peru não sai do canto e mal disfarça a tristeza. Sabe o que o aguarda.
De repente o galo canta. O peru então o interroga com um misto de surpresa e ressentimento:
-- Por que essa alegria?
-- Porque tenho alguma coisa a ver com o que acontece hoje. Um de meus ascendentes saudou o nascimento do Menino. Foi a trombeta auroreal de um novo mundo. Como eu não iria me alegrar?...  E você? Qual a razão dessa cara?
-- Ora... Daqui a pouco vou virar comida para os que vêm festejar o nascimento a que você se refere. Queria que eu estivesse contente?
-- Procure aceitar. Trata-se de uma grande causa. Além do mais, você terá tudo para ser o rei da festa. Muitos o acharão macio, crocante, bem-temperado.
-- Isso não vai depender de mim, mas da cozinheira. Esqueceu que estarei morto?
-- Estará sem vida, mas será o centro das atenções. E o mais importante: representará ali a grande nota de realidade. Mais do que a árvore, as músicas, os cumprimentos formais, dará testemunho da natureza do homem.  O sucesso dessa noite vai se medir pelo prazer que der aos convivas.     
-- Tem certeza?
         -- Claro! Você vai saciar-lhes o apetite do corpo, que é mais profundo do que o da alma. Se vir as coisas por esse lado, se convencerá da sua importância.
O peru parece refletir sobre as palavras. O galo volta a se distanciar, balançando a crista, e canta de novo sem motivo. Ou, quem sabe, devido à alegria de não ser peru.  
Quando volta de mais um passeio, ouve novo desabafo:
-- Sua retórica não me convence. É fácil elogiar um condenado à morte quando se vai permanecer vivo.  Aposto que está contente por não ocupar o meu lugar.        
-- Não nego... Mas você sabe que meu dia chegará em breve. E não terá o mesmo brilho que o seu. Vou “reinar” num desses banais almoços de domingo, com música estridente ao fundo e cerveja em vez de champanhe.
Nesse momento a cozinheira aproxima-se dos dois e se dirige ao peru. Tem numa das mãos uma peixeira brilhante. A ave não esboça reação. No momento em que é alçada e apertada de encontro à barriga da mulher, ouve ainda cantar o galo. Pela terceira vez.