quarta-feira, 4 de maio de 2016

O outro

Marcílio acordou cedo e ficou olhando a mulher dormir. Gostava de vê-la assim, imperturbável, entregue ao sono. De repente ela sorriu. Devia estar sonhando uma coisa boa. Talvez com ele, quem sabe? Junto com o sorriso, balbuciava uma palavra. O marido se curvou para ouvir:
-- Leopoldo... 
Leopoldo?! Quem era Leopoldo? Levantou-se, intrigado, e foi fazer a barba. O episódio ficou martelando sua cabeça, mas só falou sobre ele durante o jantar.
-- Marisa... quem é  Leopoldo?
-- Hã?!  Nunca vi mais gordo. Por quê?
-- Hoje de manhã, enquanto sonhava, você pronunciou esse nome.
            Explicou-lhe em detalhes o que tinha acontecido. A mulher escutava entre surpresa e divertida. 
-- Você agora deu para fiscalizar meu sono? Pois saiba que nem me lembro de ter sonhado.  Só sei que tenho dormido muito bem.  
Marcílio se chateou com o tom em que ela dissera isso, mas não tinha por que desconfiar. “Leopoldo” devia ser um colega de infância que ela já tinha esquecido e emergira no sonho sem motivo aparente. Sonhos têm dessas coisas absurdas. 
No dia seguinte acordou mais cedo e se postou ao lado da mulher, que ressonava placidamente. Ela tinha a expressão satisfeita que ele vira na noite anterior. De repente fechou o rosto, e disse:  
-- Leopoldo, fomos descobertos. Por favor, não apareça mais.
Quando Marisa despertou, uma meia hora mais tarde, viu Marcílio ao seu lado tenso e muito sério.
-- O que foi que houve? Falei de novo no sonho?
Ele não respondeu e, ao longo do dia, ficou de cara amuada.  Estava convencido de que a mulher tinha um amante -- real ou onírico, mas um amante. Amante onírico? Uma ova! Precisava descobrir quem era o tal Leopoldo. 
Marisa notava o marido cada vez mais calado e começou a se preocupar. O amante do sonho tinha virado para ele uma obsessão. Se não fizesse alguma coisa, o casamento entraria numa crise talvez sem volta.  Mas fazer o quê? 
A crise se instalou quando Marcílio disse que não dormiria mais com ela. Ficaria por uns tempos no sofá. Marisa respondeu que isso era uma tolice e um risco, pois na sala corria vento encanado e ele sofria dos pulmões.
Essa consideração demoveu o homem, que já contraíra algumas bronquites. Dormiu ao lado dela e, claro, não resistiu a acordar mais cedo e observá-la. Era já um exercício masoquista, que alimentava o seu rancor e parecia servir de justificativa para a vingança que estava preparando.  Como nos outros dias, ela começou a balbuciar:  
-- Leopoldo... vá embora. Acabou-se. Descobri que amo meu marido mais que tudo neste mundo.  
Ao pronunciar a palavra “marido”, procurou dar ao rosto a expressão que Marcilio dissera que ela tinha quando se dirigia ao “outro”. Esperou que ele se levantasse para ir ao banheiro e só então abriu os olhos. Ouviu-o cantarolar enquanto fazia a barba... O fingimento tinha dado certo.
Difícil seria impedir que Leopoldo continuasse a entrar nos seus sonhos.

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